Ameaça a catadores de recicláveis levou o MP a investigar fraude em licitação bilionária do lixo em Bauru

  • 14/09/2026
(Foto: Reprodução)
Gaeco aponta origem de investigação sobre fraude no contrato do lixo em Bauru As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que encontraram indícios de fraude na licitação bilionária para gestão do sistema de resíduos sólidos de Bauru (SP) tiveram início após denúncias de ameaça contra catadores de recicláveis. Sete pessoas foram presas, entre elas dois ex-secretários municipais. Entre os presos estão também a ex-presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis (Ascam), Gisele Moretti, e o marido dela, Valdomiro Pereira da Silva Filho, que tiveram as prisões decretadas em outra operação, que ocorreu paralelamente à Operação Cavalo de Troia, realizadas na última quarta-feira (9). 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp Valdomiro e Gisele foram presos na operação do Gaeco em Bauru TV TEM/ Reprodução A Ascam tem contrato com a prefeitura para coleta de material reciclável e é também responsável pela gestão dos ecopontos da cidade. Os contratos, no valor de mais de R$ 5 milhões, foram firmados com dispensa de licitação. Por meio dessas denúncias, informadas pela Polícia Militar em março deste ano, as investigações apontaram que Valdomiro tinha ligações com uma facção criminosa, além de antecedentes criminais de tráfico de drogas e se utilizava dessa afinidade com a organização criminosa para intimidar e ameaçar os catadores. LEIA TAMBÉM Secretários municipais são presos em operação do Gaeco em Bauru Gaeco aponta relação entre ex-secretária e CEO de empresa em suposto esquema para fraudar licitação do lixo em Bauru Gisele era presidente da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (Ascam) Divulgação A partir das apurações dessas denúncias, a investigações chegaram até Gisele, apontada no contexto da Operação Mobius, realizada de forma paralela à Cavalo de Troia, como articuladora geral de um esquema de desvio frente à associação. No documento do Ministério Público que embasou as operações, aparecem vários trechos de conversas entre Gisele e Valdomiro que dão indícios do envolvimento deles também no esquema que pretendia fraudar a licitação da gestão do lixo e limpeza pública da cidade. Processo que foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Diálogos destacados Documento do MP destaca diálogos entre Gisele e o marido TV TEM/ Reprodução Em um dos trechos, Gisele Moretti e Valdomiro, foram inicialmente investigados pela possível prática de fraude em contrato administrativo e, segundo o Gaeco, surgiram depois elementos que revelaram a existência de um esquema que seria destinado a fraudar a licitação para concessão da gestão do lixo, que ainda estava em andamento. No documento, o Ministério Público destacou mensagens em áudio, onde Gisele e o marido falam da possibilidade da Gisele solicitar o pagamento de propina a uma pessoa denominada por eles como Mitsunaga, que depois foi identificada como Luiz Henrique Mitsunaga, advogado de Gisele Moretti. Nos diálogos eles falaram sobre receber “uma pensão” de R$ 80 mil sem fazer nada e até de pagamento de R$ 100 milhões. (Veja no vídeo no início da reportagem). Ainda segundo o MP, nesse período de monitoramento das conversas entre Gisele e o marido, relativos a investigação da Ascam, o edital do lixo ainda não tinha sido publicado pela prefeitura, mas os diálogos demonstram que ela já estava se articulando para encontrar uma forma de não se prejudicar com a concessão da gestão do lixo, que afetaria também a coleta seletiva. Nomes de outros envolvidos, como a ex-secretária do Meio Ambiente, Cilene Bordezan, e o executivo Hamilton Libório Agle, ex-CEO da empresa Estre Ambiental, são citados nas escutas e a partir de diálogo entre o casal registrado no dia 11 de maio, o Gaeco passou a monitorar também as pessoas presas na Operação Cavalo de Troia. Operação 'Cavalo de Troia' Gaeco realizou operação para cumprir mandados de busca e apreensão em secretarias de Bauru Luís Negrelli A Operação Cavalo de Troia foi deflagrada na quarta-feira (9) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, em conjunto com a Polícia Militar. O objetivo da ação é apurar suspeitas de fraude licitatória, corrupção ativa e passiva, advocacia administrativa, falsidade ideológica e associação criminosa no processo da concessão da gestão integrada de resíduos sólidos em Bauru. O nome "Cavalo de Troia" faz alusão à estratégia central identificada pelos promotores: a presença, na própria cúpula da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, de agentes com vínculos econômicos e profissionais com a empresa beneficiada, permitindo direcionar as regras da disputa "por dentro" do governo. A licitação previa um contrato de 30 anos, com valor global estimado em R$ 5.259.651.116,06 — a maior contratação pública da história de Bauru —, mas o certame foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) devido a denúncias de irregularidades. Na quinta-feira (10), após audiência de custódia, a Justiça manteve a prisão temporária de sete pessoas: Operação Cavalo de Troia do Gaeco prende secretários da Prefeitura de Bauru Cilene Chabuh Bordezan (ex-secretária de Meio Ambiente) Vitor João de Freitas Costa (ex-secretário de Negócios Jurídicos — na casa dele foram apreendidos R$ 240 mil em dinheiro vivo) Sara Moura de Jesus (ex-secretária-adjunta de Meio Ambiente) Hamilton Libório Agle (proprietário e CEO da Estre Ambiental, preso em São Paulo) Talita de Andrade Soares Chieregatti (funcionária da Estre Ambiental, presa em São Paulo) Gisele Moretti (presidente da Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru - Ascam) Valdomiro Pereira da Silva Filho (empresário) A Prefeitura de Bauru exonerou os três secretários presos e o coordenador de Políticas Públicas para o Meio Ambiente, Roldão Neto, além de nomear novos titulares interinos para o comando das pastas. Em paralelo às investigações do Ministério Público, a Câmara Municipal de Bauru instaurou um pedido de Comissão Especial de Inquérito (CEI) para apurar os contratos e licitações da Secretaria do Meio Ambiente, porém o pedido foi rejeitado e arquivado na sessão desta segunda-feira (14). O que dizem os envolvidos? Procurado pela reportagem da TV TEM, Luiz Henrique Mitsunaga, advogado de Gisele citado nas conversas interceptadas, disse que "foi uma surpresa a menção do nome na investigação, com base em transcrição de terceiros", mas que "está tranquilo e que não há nada, além da atuação como defensor e responsável pelo departamento jurídico da Ascam". Disse também que a "assim que as investigações foram avançando, ficará esclarecido que atuação foram dentro dos limites da profissão." Sobre o envolvimento do ex-CEO, a Estre Ambiental informou que está colaborando integralmente com as investigações, prestando todos os esclarecimentos, e confirmou que não vai participar da licitação do lixo em Bauru. A empresa afirmou ainda que está adotando as providências necessárias para se desvincular do processo. Já a Prefeitura de Bauru reiterou que colabora com o Ministério Público, ressaltou que não há qualquer apontamento contra a prefeita e informou ter exonerado os secretários municipais citados, Cilene Bordezan, Vitor Costa e Sara Moura, além do coordenador Roldão Neto. A administração municipal também informou que abriu apurações administrativas internas. Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília VÍDEOS: assista às reportagens da região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2026/09/14/ameaca-a-catadores-de-reciclaveis-levou-o-mp-a-investigar-fraude-em-licitacao-bilionaria-do-lixo-em-bauru.ghtml


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